Cheiro de livro novo: Todo Dia

Título: Todo Dia
Autor: David Levithan
Páginas: 277
Editora: Galera Record
Avaliação: 5/5

Eu era louca para ler esse livro, desde que estava sendo lançado e foi super divulgado pelos blogueiros, há nem lembro quantos anos. Enrolei e enrolei para comprá-lo, até que descobri que o filme seria lançado esse ano. Então decidi que tinha chegado o momento de comprar, porque eu precisava ler antes do filme, afinal, já deveria ter lido! Eu comprei, li bem rápido (considerando a velocidade que eu tenho lido atualmente) e... Não consegui ter um final de semana livre para ir ao cinema assistir... 😭 O filme saiu de cartaz muito rápido e ainda não consegui ver. Mas assim que for possível, farei um filme X livro porque necessito! haha

"Queria que o amor conquistasse tudo. Mas o amor não conquista tudo. Ele não pode fazer nada sozinho.
Ele depende de nós para conquistar em seu nome."


O protagonista dessa história é A. Ele não é homem, nem mulher. É um indivíduo distinto, pois acorda em um corpo diferente todos os dias, desde que nasceu. Depois de 16 anos vivendo dessa forma, já está acostumado a trocar de sexo/ família/ nome/ personalidade/ etc. Só o que se mantém constante é a idade. Nunca muda de uma pessoa mais nova para uma mais velha e vice-versa; apenas corpos que possuem sua idade atual. Também não muda de continente, país, nem mesmo estado. Em geral, acorda não muito distante de onde foi dormir, mantendo-se em cidades próximas.

"Não sei como isso funciona, nem o porquê. Parei de tentar entender há muito tempo. Nunca vou compreender, não mais do que qualquer pessoa normal entenderá a própria existência. Depois de algum tempo é preciso aceitar o fato de que você simplesmente existe. Não há meio de saber o porquê. Você pode ter algumas teorias, mas nunca haverá uma prova."

Ao longo dos anos, depois de notar que não era como os outros, aceitou que o melhor é viver um dia de cada vez, já que não pode fazer planos mesmo. Além disso, percebeu que deve interferir o mínimo possível na vida da pessoa, para que os mais próximos não percebam que há algo de errado e também para que não acabe modificando sem querer as decisões dos outros e bagunçando uma vida que não é sua.

"Sempre haverá mais perguntas. Toda resposta leva a mais perguntas.
O único meio de sobreviver é abrindo mão de algumas."

As emoções são a única coisa que A não consegue acessar na pessoa em que está. Mantêm-se apenas as suas, o que, de certa forma, contribui para que conserve uma identidade própria. O fato de ter estado em tantos corpos também faz com que tenha uma visão única do mundo, das pessoas e uma opinião ampla a respeito de vários assuntos.

"— É só que, sei que parece um modo horrível de  se viver, mas eu já vi muitas coisas. É muito difícil ter uma noção verdadeira do que é a vida quando se está num único corpo. Você fica tão preso a quem você é. Mas quando quem você é muda todos os dias, você fica mais próximo da universalidade. Mesmo dos detalhes mais triviais. (...) Você aprende o verdadeiro valor de um dia, porque todos os dias são diferentes."

Minha gata modelando para o blog. Linda, né? 😻

Até o dia em que acorda no corpo de Justin. Ele namora Rhiannon, uma garota meiga e linda, mas que é ofuscada ao seu lado. A apaixona-se por seu jeito quase instantaneamente, mas percebe que a garota não se sente totalmente à vontade ao seu lado, pois Justin tem um jeito imprevisível e muitas vezes explosivo. Pela primeira vez depois de anos, A decide que deve interferir. Resolve que Rhiannon vai ter o dia mais feliz dos últimos tempos. Porém, depois do que faz, não consegue esquecê-la. Sente que ela não merece esse relacionamento abusivo e que precisa voltar a vê-la. A cada dia, A e Rhiannon precisarão enfrentar dificuldades se quiserem manter o contato. E pela primeira 
vez na vida, tudo que A queria era que houvesse uma forma de manter-se em um só corpo.

"Todo relacionamento tem um começo difícil. (...) Não é como uma peça de quebra-cabeça que encaixa no mesmo instante. Num relacionamento, você tem que dar forma às peças, a cada extremidade, antes de elas se encaixarem perfeitamente."

A me conquistou logo de cara. É estranho ler sobre alguém que não tem nem um nome, mas é muito fácil se apegar e ficar imaginando como seria ter uma vida como a dele. Eu só conseguia imaginá-lo como homem, acho que por hábito mesmo, mas foi uma experiência bem interessante a cada capítulo ter que visualizá-lo com uma aparência diferente. Imagina como seria conviver com uma pessoa assim! É um personagem que, apesar de ter aceitado sua característica e poder ter certas liberdades por isso, também carrega suas tristezas e angústias. Rhiannon é uma fofa. Acho que ela lidou super bem com essa situação toda, nem todo mundo reagiria tão tranquilamente, e as suas atitudes foram bem compreensíveis. Justin é o típico idiota pelo qual as garotas se apaixonam, mas, quando ele quer, sabe tratar direito a namorada, e isso acaba fazendo com que ela insista em manter esse relacionamento que claramente não está fazendo bem.

"Sei disso há algum tempo, mas você pode saber de algo durante anos sem que isso realmente o atinja. Agora está atingindo. Nunca vou ter uma família para chorar por mim. Nunca vou ter pessoas sentindo em relação a mim o mesmo que sentem em relação ao avô de Marc. Nunca vou deixar o rastro de lembranças que ele deixou. Ninguém nunca vai me conhecer nem saber o que fiz. Se eu morrer, não haverá corpo para me marcar, nem funeral para ir, nem enterro. Se eu morrer, ninguém além de Rhiannon, saberá que estive aqui."

Achei a ideia desse livro muito original. Normalmente eu torço o nariz para enredos de fantasia em que o autor não explica porque as coisas são como são, eu gosto quando fazem o possível para tornar a história bem realista, mas nesse eu realmente não me importei. Ele simplesmente acorda no corpo dos outros e vida que segue, porque a história é interessante demais para me ater a esse detalhe. E o que David fez foi genial. Em apenas uma obra, ele conseguiu abordar praticamente todos os assuntos que são relevantes na literatura jovem atualmente. Como em cada capítulo o protagonista era um novo personagem, ele sempre passava por situações diferentes, então foi possível trazer à tona temas como depressão, homossexualidade, consumo de drogas, suicídio, além das pressões típicas da idade, como faculdade, amizades, relacionamentos amorosos, retratados em diferentes personalidades, convicções, famílias, crenças, planos, sonhos. É até difícil de falar, porque tem de tudo. Mesmo que nada seja aprofundado demais, tudo que é importante tem seu destaque no momento adequado. Mas o foco sempre é a dificuldade em manter contato com Rhiannon e até que ponto o amor é forte o suficiente para suportar.


A narrativa é em primeira pessoa, sempre pelo ponto de vista de A. A escrita de David é fluida e a leitura foi gostosa, rápida e me prendeu muito. A diagramação está muito boa, letras grandes, páginas amareladas e resistentes, capítulos bem divididos. A editora fez um ótimo trabalho com a revisão, não lembro de encontrar erros. Gosto muito dessa capa, com os personagens caindo pelo céu. Apesar de simples, me chama a atenção.

Esse é um daqueles livros que vale a pena ser lido e que vai entrar para a lista das minhas constantes indicações. É um livro que traz diversos assuntos que já estamos acostumados a ler, mas de uma forma inovadora. Tem seus momentos alegres, fofos e tristes, mas sempre tem algo para fazer refletir. Eu gostei demais e queria muito que tivesse continuação, apesar de saber que não é uma história feita para ter sequência. O autor escreveu Outro Dia, que é a mesma história pelo ponto de vista de Rhiannon, e tenho curiosidade de ler futuramente. Mas tudo que me resta agora é assistir ao filme e ver se eles conseguiram captar a profundidade do livro. Por fim, deixo aqui minha dica. Leiam! 😉

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