Cheiro de livro novo: O Conto da Aia

Título: O Conto da Aia
Autora: Margaret Atwood
Editora: Rocco
Páginas: 366
Próximo: Os Testamentos
Avaliação: 5/5

Olá, leitores! A resenha de hoje é de um livro que está dando o que falar atualmente. Apesar de ter sido lançado primeiramente em 1985 — sim, 35 anos atrás! — O Conto da Aia permanece muito atual e ganhou novo destaque devido a série The Handmaid's Tale, que tem feito muito sucesso, e ao lançamento de uma sequência no ano passado, Os Testamentos. Eu não sabia do que se tratava (eu tenho uma tendência a ignorar modinhas, se não me der um estalo de prestar atenção hahaha) até me deparar com um pequeno trecho na Bienal do ano passado, que me deixou profundamente intrigada. Decidi pesquisar sobre e logo estava adquirindo o livro. E agora só tenho uma coisa a dizer: todos deveriam ler!

"Melhor nunca significa melhor para todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns."

Quem nos narra essa história é Offred, uma Aia de 33 anos. Seu antigo nome não é revelado e nem deve ser lembrado, agora é assim que deve ser chamada. Ela é uma das primeiras Aias da República de Gilead, o que tornam as coisas mais difíceis de suportar. Seu tempo é dividido entre fazer compras, esperar e lembrar.

"(...) Não é de fugas que eles têm medo. Não iríamos muito longe. São daquelas outras fugas, aquelas que você pode abrir em si mesma, se tiver um instrumento cortante."
 
Offred lembra como era antes. Quando tinha um nome, um emprego, um marido e uma filha. Quando podia escolher o que fazer, dizer e para onde ir. Quando tinha uma vida normal e não era vista somente como um receptáculo. Agora, sob custódia do governo, a única coisa que deve almejar é ter um filho, pois é para isso que as Aias servem. O mundo foi devastado pela irresponsabilidade humana, e as mulheres que ainda são férteis são raras e valorizadas.

"Existe mais de um tipo de liberdade, dizia Tia Lydia. Liberdade para, a faculdade de fazer ou não fazer qualquer coisa, e liberdade de, que significa estar livre de alguma coisa. Nos tempos da anarquia, era liberdade para. Agora a vocês está sendo concedida a liberdade de. Não a subestimem."
 
Ela lembra como foi a transição do governo. Como conseguiram, dia após dia, fazer a população enxergar que essa era a melhor forma de manter as coisas. E lembra de todas as coisas que foram ensinadas no Centro Vermelho, local onde as Aias são educadas e aprendem como devem se portar e quais são suas funções.

"A humanidade é tão adaptável, diria minha mãe. É verdadeiramente espantoso as coisas com que as pessoas conseguem se habituar, desde que existam algumas compensações."
 
Além das lembranças de sua família, sua amiga e sua vida anterior e as lembranças do início de sua vida atual, também somos transportados para o presente em Gilead. Offred nos conduz por sua rotina monótona, de sair para as compras do dia com sua companheira igualmente entediante, suas limitadas interações com os membros da casa em que está — as duas Marthas, mulheres que não podem ter filhos, portanto assumem as funções domésticas; a esposa do Comandante; o motorista; e o Comandante. Porém, pouco a pouco, mudanças vão ocorrendo nessa rotina e vemos surgir uma chama que quase se apagou: esperança.

"Mas isso está errado, ninguém morre por falta de sexo. É por falta de amor que morremos. Não há ninguém que eu possa amar, todas as pessoas que eu podia amar estão mortas ou em outro lugar. Quem sabe onde estão ou quais são seus nomes agora? Poderiam muito bem não estar em lugar nenhum, como eu estou para elas. Também sou uma pessoa desaparecida."
 
Offred é uma mulher comum, que tinha uma vida comum antes. Uma vida que era dela, com as escolhas que ela tinha feito. Até que tudo mudou drasticamente e somente duas coisas ainda mantêm sua sanidade: o medo de morrer e a esperança de que um dia pode reencontrar seu marido e sua filha. É difícil compreender totalmente a intensidade de seus sentimentos, até porque ela tem muito tempo livre para ruminar tudo, ao mesmo tempo que ela própria tenta barrar as emoções, para não se entregar a isso. Através de sua narrativa, conhecemos pessoas do seu passado, como Luke, seu marido; sua mãe; e sua melhor amiga, Moira. Também conhecemos o Comandante, do qual ela é a Aia nesse momento; a esposa dele, uma antiga pregadora que agora está fadada a vida de silêncio e rotina doméstica; as Marthas da casa; o motorista Nick; e Ofglen, sua companheira de caminhada. Apesar de serem poucas as interações entre os personagens, tudo que acontece revela mais sobre a sociedade e certas coisas que ocorrem por trás dos panos.
 
Esse é um dos livros distópicos mais assustadores que eu já li, simplesmente por conseguir sentir a realidade de tudo aquilo. Um governo totalitário e teocrático, que usa a religião para ditar as regras e controlar com mãos de ferro toda a população. A forma como a autora aborda o surgimento da República de Gilead, o golpe de poder, o retrocesso na educação e nos direitos humanos. Tudo que acontece é palpável, não é aquela coisa distante ou que precisa de um apocalipse para ocorrer. Está logo ali, nas sombras, aguardando o momento certo de surgir, e não importa o quanto estejamos preparados para perceber algo errado, não há tempo de fugir. O pior de tudo é pensar que a autora teve essa ideia há mais de 30 anos. Por mais que a gente ache que o mundo mudou... Ainda me gela perceber quão perto podemos estar de realidades assim. Definitivamente Margaret foi brilhante e visionária.
 
"Gostaria de saber o que Tu estiveste fazendo. Mas seja lá o que for, ajuda-me a suportá-lo, por favor. Embora talvez não seja Tua obra; não creio nem por um instante que o que está acontecendo lá fora no mundo seja o que querias."
 
O enredo é extremamente bem construído. Fiquei confusa no início, até me adaptar às idas e vindas dos pensamentos da personagem e a forma como sua vida fluía. Mas logo estava envolvida em tudo aquilo. É um livro lento no começo, até porque pouca coisa de fato acontece, mas quando começamos a torcer para alguma coisa mudar na rotina, a leitura voa. Ainda assim é uma história densa, que deve ser lida com cuidado e atenção, no ritmo que você for capaz de absorver tudo que ela transmite. É um livro pesado, mas não da forma como eu imaginava, com violência e sangue. É pesado porque é intenso, cru e real.

Praticamente todo o livro é narrado em primeira pessoa pela Offred, como se ela realmente estivesse nos contando uma história, sua história. A diagramação está ótima, as fontes são confortáveis, as folhas são amareladas. O livro é todo dividido em partes, de acordo com o que está acontecendo na vida da protagonista naquele momento, e as partes possuem vários capítulos. A qualidade do livro é muito boa e a revisão está excelente, não lembro de encontrar erros. Só essa capa que acho meio esquisita, mas enfim... rs

Para concluir, só gostaria de reforçar o quanto acho relevante essa leitura. Tenho recomendado para todos que me perguntam sobre livros, principalmente mulheres. Margaret aborda feminismo, religião, política, entre outros assuntos, de uma forma tão atual que é como se tivesse escrito ontem. Sem dúvidas é um livro que nos abre os olhos e marcará ainda muitas gerações de leitores. Achei que eu fosse ficar frustrada com a forma como a história foi concluída, mas percebi que o que precisava ser passado, foi passado. O resto fica por conta da imaginação mesmo e definitivamente é um livro que merece todas as estrelas possíveis.

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