Cheiro de livro novo: A Música do Silêncio

Título: A Música do Silêncio
Autor: Patrick Rothfuss
Páginas: 127
Editora: Arqueiro
Série: A Crônica do Matador do Rei

Meu namorado é super fã da série (foi ele quem me fez ler) e é apaixonado pela Auri (assim como eu pelo Kvothe xD), então resolveu comprar esse livro na Bienal. E eu, aproveitando que terminei os dois livros e estou aí aguardando o último, peguei para ler na esperança de conseguir me separar desse mundo um pouquinho mais lentamente. Talvez tenha funcionado, porque a história da Auri é totalmente diferente da que eu estava acostumada, apesar de se passar no mesmo mundo. Mas eu também sei que esse universo criado pelo Pat é daqueles que não saem da cabeça nunca mais, apenas se aprende a conviver com ele.
"Há uma diferença entre a correção e o que desejamos que seja certo."
Se você espera rever o Kvothe, saber mais sobre ele ou sobre sua história nesse livro, é melhor nem ler. Essa história é sobre a Auri. Sete dias de sua vida, enquanto espera pela visita dele, em sua busca por presentes apropriados para oferecer. Todos sabemos que ele é o Kvothe, mesmo que ela não diga seu nome em nenhum momento.
É uma história bem diferente, já que ela é uma garota diferente. Quem já leu os livros da Crônica do Matador do Rei sabe disso (e quem não leu realmente não deveria começar com esse, porque não vai entender nada e não vai achar bom). 
"Ele logo chegaria para visitá-la. Encarnado e doce e triste e alquebrado. Igualzinho a ela. Chegaria e, como perfeito cavalheiro que era, traria três coisas."
Ela vive nos Subterrâneos, sob a Universidade, em escombros do que um dia já foi habitado. Com seu ponto de vista, conhecemos muito mais sobre esse lugar do que o Kvothe foi capaz de descobrir. Os diferentes ambientes, coisas antigas perdidas por lá, que revelam um pouco do que já foi um dia.
Basicamente, a história nos conta em detalhes o decorrer dos dias e como Auri passa seu tempo por lá. O que ela faz, os lugares que visita, os objetos que encontra e a forma como cuida constantemente daquele cantinho que agora é o seu lar, evitando assim que outras pessoas entrem nos Subterrâneos e perturbem a ordem (e a encontrem), muitas vezes esquecendo de suas próprias necessidades para manter tudo organizado como deve ser.
"A pessoa não devia desejar coisas para si. Isso a mantinha pequena. E segura. Significava que ela poderia mover-se tranquilamente pelo mundo, sem criar complicações com tudo em que esbarrasse. E, se fosse cuidadosa, se fosse parte apropriada das coisas, ela poderia ajudar. Remendar o que estivesse rachado. Cuidar das coisas encontradas em desalinho."
Gostaria de dizer que descobrimos muitas coisas sobre a Auri, mas infelizmente não é o que acontece. Ela continua sendo a mesma menina misteriosa e doidinha. Mas sem dúvida a forma como sua cabeça funciona fica um pouco mais visível para os leitores. Também não posso dizer que não descobrimos nada sobre ela. Em meio a suas atividades diárias, algumas informações sobre ela vão sendo reveladas, como o fato de ser ótima em alquimia.
"Ela sabia com que rapidez as coisas podiam quebrar. Fazia-se o que era possível. Cuidava-se do mundo pelo mundo. Torcia-se para ficar em segurança. Mas, ainda assim, ela sabia. Ele podia desmoronar, e não havia nada que se pudesse fazer."
Ela é uma garota muito sensitiva e de alguma forma é capaz de perceber o que os objetos e lugares "sentem" e "desejam". Pode parecer que ela apenas deseja interagir com as coisas, já que não convive com ninguém, mas, para mim, foi a forma que ela encontrou de tentar deixar o mundo um pouquinho melhor. E ela é boa nisso, porque, de algum jeito, funciona.
Esse livro foi feito para quem gosta da Auri e tem curiosidade de saber um pouco mais sobre seu estilo de vida. Ela é uma pessoa triste e solitária, que guarda muitos segredos, mas que tenta sorrir e ser feliz com o pouco que o mundo deu. Não sei há quanto tempo ela está escondida, nem porque ela foi parar lá, ou o que a fez ficar desse jeito, tampouco sei se ela mesma lembra dessas coisas. Só sei que ela é alguém muito especial, com seu talento de entender as coisas.
"Agora eles pareciam muito mais leves, embora isso não fosse surpresa. Tinham revelado seus segredos, e ela sabia muito bem como os segredos bem guardados podiam tornar-se pesados."
A narrativa é bastante diferente dos outros dois livros, mais lenta e repetitiva, sem ação, sem diálogos, mas mesmo assim em alguns momentos dá uma empolgação. Eu nunca tinha parado para imaginar como era a vida da Auri quando ela não estava com o Kvothe, e me surpreendi ao perceber que há muita coisa que ela pode fazer, algumas até perigosas, que me deixaram com uma certa angústia ao pensar nela sozinha naqueles lugares que ninguém sabe que existem.
O autor conseguiu passar bem os sentimentos da personagem, nos fazendo entrar em sua mente conturbada, o que foi interessante, porque ela é difícil de compreender. Seu modo único de enxergar o mundo é como ela: triste e lindo. Sinto que ela se revelará uma pessoa ainda mais importante no próximo livro, mas, mesmo que isso não aconteça, ela já se mostrou muito importante para mim. E o tanto que ela gosta do Kvothe... Não sei como nunca tinha notado antes!
As ilustrações que encontramos ao longo do livro são como a parte escrita: bonitas, misteriosas e, no fim das contas, não nos revelam nada. Mas são um toque especial que complementam tudo.
Agora me despeço desse mundo incrível por algum tempo (espero que pouco rs), até que o terceiro livro seja lançado. Gostei de como a história da Auri se encaixa na narração do Kvothe, e espero que esse livro tenha uma correlação maior do que aparenta. De uma forma ou de outra, fiquei feliz em entender melhor a Auri e passei a gostar ainda mais dela depois de acompanhá-la. Ainda torço por respostas mais concretas, mas... Quem sabe o que o autor nos reserva?



Resenha de O Nome do Vento aqui.
Resenha de O Temor do Sábio aqui.