Livros *----* Silêncio

Título: Silêncio
Autora: Richelle Mead 
Páginas: 280
Editora: Galera Record
Avaliação: 4/5

Silêncio foi uma leitura que eu fiz sem muitas expectativas, porque apesar de gostar muito da Richelle, havia lido algumas críticas negativas de pessoas que se frustaram ao comprar a história com as séries Academia de Vampiros e Bloodlines. Eu fiquei bastante satisfeita com o que encontrei mas acredito que realmente seria bem complicado fazer comparações entre um livro único e uma série de seis livros. Então, caso você tenha lido essas séries da autora, tente se desprender delas antes de ler Silêncio.

Fei vive em um vilarejo no alto de uma montanha. Ela e a irmã são artistas e todos os dias pintam as noticias para que os habitantes do povoado saibam o que está acontecendo. Há muitos anos, eles perderam a audição e agora alguns começaram a perder a visão. Mas sem visão e audição, eles não podem trabalhar nas minas, pintar ou realizar outras funções, ficando mendigando ao relento. A irmã de Fei começou a perder a visão e ela tenta encoberta-la enquanto pode, mas teme o dia em que não poderá mais fazê-lo ou o dia em que sua irmã perderá a visão por completo, sem que possa executar nenhuma outra função. 

“A historia é de que, há muitos séculos, os pixius andavam pelo nosso povoado. Um dia, decidiram que iriam descansar e levaram embora os sons da nossa montanha para poderem dormir em paz”

O povo de Fei não consegue plantar no alto da montanha devido ao seu clima característico e nem descer a escarpa, já que não há nenhum tipo de trilha e, sem audição, não é possível nem mesmo ouvir quando há um deslizamentos de pedras. Então, a sua única chance de sobrevivência é através do sistema de cabos. Todo os dias, eles enviam minérios e, em troca, recebem alimentos. Mas, com os casos de cegueira no povo, o número de mineradores diminuiu e o número de minérios recolhidos também. Porém, as pessoas ao pé da montanha não gostaram do arranjo e começaram a enviar menos alimentos. Tudo isso tem causado um grande número de problemas no povoado e a situação está perto de ficar insustentável. 

"É por isso que as coisas nunca mudam, ele declara enfaticamente. Todos ficam apegados à maneira como as coisas sempre foram, e essa maneira está nos matando. Se vamos morrer de uma forma ou de outra, quero rumar para a morte me esforçando para ter feito alguma diferença: tentando salvar a mim mesmo e aos outros. Somente viver um dia depois do outro já não basta. "

É quando Fei e Li Wei decidem descer a escarpa para conversar com o guardião dos cabos, lhe explicar a situação de seu povo e tentar chegar a algum tipo de solução que agrade a ambos os lados. De alguma forma, que ela não consegue compreender, Fei recuperou a audição e percebe que talvez ela seja a única que poderia realizar essa descida. Eles são jovens muito determinados, apesar de Li Wei também ser bastante teimoso. Eles se conhecem desde pequenos mas foram separados pelo talento de Fei, que a levou a uma casta superior. Então, ela teve que enterrar os sentimentos que nutria por ele, afinal, pessoas de diferentes castas não devem se misturar. Entretanto, quando começam a trabalhar juntos, ela percebe que talvez não tenha sido tão eficaz nessa tarefa de enterrar seus sentimentos..

“Um grito é o som que fazemos em reação a um sentimento muito intenso. [...] E o grito de dor ou de raiva... Bem, esse é inteiramente diferente. Ele vem de um lugar mais obscuro, das profundezas da nossa alma, e, quando gritamos nesses momentos em que estamos tristes ou com muita raiva, existe uma constatação terrível que acompanha esse ato: a de que estamos dando voz a uma emoção que é simplesmente grande demais para caber no nosso coração."

O que mais me surpreendeu na obra foi a maneira como a autora utilizou-se da mitologia chinesa para criar a sua fantasia, não tenho muitos conhecimentos a respeito das crenças orientais e acredito que isso tenha debandado bastante pesquisa por parte da autora, apesar desses elementos terem se apresentado mais no final da obra. Também achei muito interessante a forma como a autora trabalhou a questão dos personagens serem surdos e a maneira como a Fei descobriu sua audição, como ela começou a dor nome aos sons que ouvia e a associá-los ao canto de um pássaro ou a um grito de desespero. É algo tão simples e complexo ao mesmo tempo e eu imagino que seja mesmo uma sensação completamente desorientadora, para uma pessoa que nunca ouviu, poder escutar pela primeira vez. Eu não dei cinco estrelas para a obra apenas porque demorei um pouco para engrenar na leitura, achei o início do livro um tanto lento. Porém, o final me agradou e o romance também.

Posso ouvir seus gritos, e eles são terríveis, sons de partir o coração; mesmo vindos daqueles que sei serem meus inimigos. Os gritos me fazem desejar viver mergulhada no silêncio outra vez, e me pergunto como será que os soldados conseguem devotar suas vidas à guerra. Quem é capaz de conviver permanentemente com toda essa confusão e desespero?
 
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