Cheiro de livro novo: Uma Canção para a Libélula - Parte Um

Título: Uma Canção para a Libélula - Parte Um
Autora: Juliana Daglio
Páginas: 173
Editora: Arwen
Avaliação: 5/5
Skoob

Finalmente tive a oportunidade de ler e me encantar novamente com a escrita da linda Juliana Daglio. Desde que li O Lago Negro, através do Book Tour organizado pela autora, fiquei com muita vontade de ler seus outros livros. Quando vi que os blogs Biblioteca Lecture e Minha Fuga da Realidade estavam organizando um Book Tour de Uma Canção para a Libélula, me inscrevi na hora, e fiquei muito feliz por ter sido selecionada. 😄

"Quando uma dor pede para levar embora suas lembranças ruins, ela leva também a parte boa. Arranca as raízes de tudo que você lembrava de ser."


Vanessa tem 24 anos e desde muito pequena sempre foi um prodígio musical. Atualmente, é uma pianista com a carreira em ascensão. Há 13 anos mora em Londres com a tia Lorena, o tio Ted e a prima Rebeca, e lá criou toda sua vida, deixando seu passado sombrio para trás. 

Pode até parecer que Vanessa tem uma vida perfeita: uma casa confortável, uma família amorosa, um namorado maravilhoso, uma carreira promissora. No entanto, ela não se sente uma pessoa feliz. É uma mulher centrada, silenciosa, habituada com sua rotina, mas que luta constantemente para manter seus fantasmas adormecidos. O único momento em que se sente verdadeiramente livre e alegre é quando está tocando.

"— É... Algumas pessoas só se revelam quando estão fazendo o que gostam."

Sua lembrança de infância mais forte é a de um dia no lago, quando viu pela primeira vez uma libélula e encantou-se pelo singular animal. Chegou até mesmo a compor uma linda canção no piano em homenagem a ela. Mas essa canção, assim como a lembrança, fazem parte de um passado que a persegue em pesadelos, do qual ela não quer se lembrar.

Até que chega o momento mais temido de sua vida. Seu pai, que ainda mora no Brasil, está doente e não pode visitá-la, como fez em todos esses anos. Ele pede, então, para que ela vá visitá-lo. Mesmo receando o retorno à casa que abrigou os piores anos de sua vida, por amor ao seu pai, ela decide acatar o pedido.

"— Não importa em qual lugar dessa cidade eu esteja, meu passado vai sempre me perseguir.
— Porque nós temos que resolver nossos problemas do passado antes de seguirmos adiante."

Porém, estar de volta à São Paulo, em uma casa cheia de assombrações, frente a frente com a mulher que a magoou e a destruiu de uma forma irreparável, não é tão fácil quanto ela gostaria que fosse. Pensou que ser adulta, independente, e não mais a menininha frágil e indefesa de antes, faria com que enfrentar sua mãe fosse algo simples. Mas não é. Todo o passado esquecido retorna com uma força capaz de derrubar os muros que ela criou ao redor das lembranças. E a Vilã Cinzenta, que passou anos apenas a observando, volta a apoderar-se de sua vida e de seus pensamentos com mais intensidade do que nunca, e dessa vez pode levar Vanessa ao fundo do poço.


"As pessoas ficam impressionadas com os melhores.
Mas elas não sabem: eles são loucos; cheio de cicatrizes.
Eles caem.
Até o nada."

Mais uma vez fui fisgada por uma história escrita pela Juliana Daglio. Vanessa é uma mulher adulta, o que já começou me surpreendendo, porque, não sei por qual motivo, eu esperava uma personagem bem mais jovem. Ela é satisfeita com a vida que leva, mas, de uma hora para outra tudo resolve mudar, o que a abala muito. A vilã cinzenta, como ela chama a depressão, passa a persegui-la com força total e vemos sua luta para não se entregar.

Pela primeira vez, li um livro que aborda a depressão em primeira pessoa, acompanhei todo o sofrimento de uma pessoa que tem essa doença. Eu não tenho depressão e nunca fui muito próxima de ninguém que tivesse, mas me interesso pelo assunto. O que a torna mais prejudicial é o fato de a pessoa que tem não querer admitir que está doente e recusar qualquer oferta de ajuda, assim como as pessoas próximas a ela não notarem que algo está errado até ser tarde demais. Nesse livro, pude visualizar claramente como essa situação é fácil de ocorrer. Vanessa recusa-se a se abrir, não aceita que precisa de ajuda, não aceita que está afundando em seus próprios sentimentos sombrios. Por outro lado, sua família  destaco aqui o seu pai  continua fingindo que tudo está bem, quando claramente não tem nada de normal em tudo aquilo.

"— Talvez eu pareça muito ingênua, mas de qualquer forma digo uma coisa para a senhorita: passado é passado, e é lá que deve ficar.
— E quando a gente não esquece?
— Não é para esquecer, é para não deixar ele atrapalhar o hoje."

Uma Canção para a Libélula foi uma leitura que me emocionou. Eu imaginava que iria chorar, mas, por incrível que pareça, isso não aconteceu (ainda). Mas isso não quer dizer que eu não tenha me emocionado. O livro é muito intenso, a Juliana conseguiu transmitir as emoções da personagem de uma maneira que nem consigo descrever. Eu consegui sentir tudo que ela passava, cada frase uma nova pontada no peito, uma dor que eu não tinha experimentado antes. Vanessa me fez sofrer junto com ela durante todo o tempo.

Mas engana-se quem pensa que a depressão é algo assim tão óbvio. E dentro da mente de Vanessa, a gente percebe o quanto ela se esforça para continuar normal, até não conseguir mais aguentar. No dia-a-dia, é uma pessoa como qualquer outra: sai, se diverte, faz piada, ri, tem relacionamentos. A crise vai se anunciando aos poucos e ela ainda tenta lutar no início. O que mais me incomodou no pai dela foi o quanto ele demorou para entender que precisava interferir. Não perceber que a pessoa está ficando diferente, no início, pode ser aceitável. Depois, porém, quando obviamente algo está errado, você tem que estar preparado para fazer o que é necessário. Mas outra coisa que esse livro me mostrou é que as pessoas ao redor nunca estão preparadas. Elas não sabem como lidar com alguém com depressão, não sabem como reagir, não sabem como ajudar, não sabem o que esperar. Ficam sem ação e isso acaba contribuindo para que o quadro piore. A pessoa está sofrendo e sente-se cada vez mais sozinha e desamparada, até atingir um ponto crítico.



Como era esperado, o enredo também traz um certo mistério. Vanessa tem os motivos dela para não querer lembrar do passado, e são essas lembranças terríveis e secretas que vão dando o suspense na leitura. Queremos saber o que de fato aconteceu quando ela era criança. A mãe de Vanessa, Valéria, é uma mulher que me deixou chocada e sem saber do que mais ela poderia ser capaz. Ela é louca, ela é cruel, e eu não consigo entender como uma pessoa pode sentir tanto prazer em diminuir a outra assim, principalmente sendo a própria filha. Mas não posso ser ingênua, pessoas assim existem de verdade.

Por fim, Nathan é um personagem que me deixou bastante intrigada. Sempre vejo todos que leram o livro morrendo de amores por ele, e eu só fiquei pensando "quem é esse cara esquisito?". Imagino que no próximo livro ele realmente mostre para o que veio. Ainda têm muitas coisas que precisam ser esclarecidas.

"— Sonhos... sonhos... sonhos são desejos. Você quer, garota inútil. Você quer morrer. Foi culpa sua.
Queria gritar e protestar. Por que ele me dizia essas coisas terríveis? Por que me odiava tanto? Mas era verdade! Claro que era tudo minha culpa."

Libélulas para todos os lados! 😍

Sobre a diagramação, devo admitir que a falecida editora fez um belo trabalho. O livro está lindo, cheio de libélulas em todas as páginas. A fonte é confortável para a leitura, as páginas são amareladas, e a capa é bonita (e cheia de libélulas), mesmo que eu não goste muito dessa modelo na frente. Encontrei pouquíssimos erros de revisão, que em nada atrapalharam a leitura. O livro é bem pequeno e a leitura flui rapidamente, pois a Juliana tem uma escrita que prende o leitor.

Para finalizar, recomendo muito essa leitura. Eu já imaginava que fosse gostar, e mesmo assim foi um livro que me surpreendeu, que me fez sentir emoções que eu não esperava. A história da Vanessa e sua luta contra a vilã cinzenta são marcantes. Se você se interessou pelo tema, com certeza vai gostar de ler. Mas esteja preparado para o que vai sentir.



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